Translate

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

YES... and NO!


- What the hell? Where am I? Damn. It is black as pitch. I can’t see shiiit.
HEEEEYYYYY… Is there anyone out there?
- Screaming is useless.
- Who said that? Who’s there?
- I am.
- Who the hell are you?
- No-one. And Everyone.
- Are you freaking kidding me?
- Yes. And No.
- Listen, man. I ain’t kidding, alright? Tell me who you are.
- I just did.
- Where are you? I can't see you.
- I am here. And There. I am Everywhere.
- WTF? Do you think this a joke?
- No. Do you?
- No. Where are we? Do you know this place?
- Yes. And No.
- Oh boy. I’m gonna kill you. And then I’ll kill you again. And again. And one more time.
- Will you?
- Yes, I will.
- So what are you waiting for?
- You’re lucky that I can’t see shit. If I could I would…

Lights on...

- Oh good. Lights are on. Now, let me see your freaking FAAAAACE… OH MY GOD… OH MY GOD… OH MY GOD... WHAT THE HELL ARE YOU????
- Scared?
- STAY AWAY FROM ME.  HEEEEEEEELP !!!! LEMMEOTTAHERE !!!
- screaming is useless.
- Please, don’t kill me. Pleeeease. I take it back. I am not gonna kill you. I was kidding.
- Were you?
- Yes, I was.
- I won’t kill you. Or will I?
- Please, don’t. I am too young to die.
- How old?
- 16
- Perfect number.
- What?
- I like 16. They taste freshYyyy...
- Noooooo… Please, don’t eat me.
- I won’t eat you. At least not entirely.
- What?
- Which one?
- Which one what?
- Which arm do you want me to rip off? 
- Neither.
- Sorry. It has to be one of them.
- Dear Lord… That gotta be a dream. I am dreaming, aren't I?
- Are you?
- I DON’T KNOW !!!! BUT YOU CAN’T BE REAL.
- Can’t I?
- STOP ANSWERING MY QUESTIONS WITH ANOTHER QUESTION !!!
- That bothers you?
- Big Freaking Time.
- Ok. Which one?
- I’m not saying each one.
- The left then.
- No… no… NOOOOOOOOOO…
- Hmmm… Yammy.
- WHY DID YOU DO THAT? OH MY GOOOOD !!! I’M GONNA DIE.
- Are you?
- You ripped off my left arm.
- Did I?
- Yes, you did. Look… look… what the… my arm… IT’S HERE. IT’S HEEEEEEERE.
- Is it?
- Yes, it is. Look…. No… No... NOOOOOOOOO… Where is it? It was here 5 seconds ago.
- Was it?
- YES, IT WAS. I SAW IT.
- Did you?
- I swear to God if you ask me a question one more time...
- What are you going to do with just one arm?
- I don’t know… Please, tell me. Am I dreaming?
- Are you?
- I asked first. AM I DREAMING?
- Yes. And No.

Lights off...

- Oh no. That can’t be happening.
- Are you religious?
- What?
- Do you believe in God?
- No.
- So, why did you say Dear Lord or I swear to God?
- Don’t know. They’re just expressions.
- Do you believe in Hell?
- No. There is no Hell.
- Isn’t there?
- No, there isn’t.
- where are we, then?
- I don’t know. Is this Hell?
- Yes. And No.
- Are… You… Satan?
- Am I?
- You look like him.
- Do I?

Lights on...

- WHAT THE…
- how about now? do i look like him?
- Megan… Fox???? Are you Megan Fox?
- Am I?
- I DON’T KNOW, BUT YOU DEFINITELY LOOK LIKE HER. ARE YOU HER?
- Yes. And No. I am Everyone.
- Oh God. This is Hell.
- STOP SAYING GOD. YOU DON’T BELIEVE HIM.

Silence…

- Sorry.
- That’s ok. Which one?
- Which one what?
- which leg do you want me to rip off?
- Megan, are you gonna eat my leg?
- Yes. And No.
- Come on… You don’t have to do it, right?
- The left or the right?
- Pleeeeeaseeee…
- THE LEFT OR THE RIGHT?
- The left.
- Ok. That’s gonna hurt. 
- No… No… NOOOOOOOOO
- Yammy.
- You freaking b*****. Shiiiiiiiiit.
- Tasty.
- Why are you doing this to me? What’ve I done?
- Nothing.
- See? I’ve done nothing.
- And that’s the problem. You’ve done nothing.
- What was I supposed to do?
- Everything.

Lights off…

- Not again. Is this Hell? Am I gonna die here?
- Yes. And No.
- Is there anything I can do to change that?
- Yes. And No.

PEH PEH PEH

- What sound is that?

PEH PEH PEH

- Hey. Are you there? Are you still there?

PEH PEH PEH

- Michael.

PEH PEH PEH

- Michael. Wake up.

PEH PEH PEH

- Wake up, son. Time to go to school.
- Dad???
- Yep. You ok? You look pale.
- Yeah… I am fine. I just had this crazy dream about a monster that transformed into Megan Fox.
- Wow. Megan Fox? She's hot.
- Yes, dad. But she ripped off my leg and ATE it.
- Still hot.
- Dad, I was in Hell and Megan Fox was the devil.
- Still hot.
- DAAAAAAD !!!
- Relax, son. It was just a dream. Now get up and get ready.
- Ok, dad.
- Oh… Just one more thing, son.
- What is it?
- Which one?
- Which one what?
- The left or the Right leg?
- No… No… NOOOOOOO



sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Vai uma pizza aí?





Beard está eufórico. Em anos esse será o primeiro que irá receber o 13º salário completo. Nos anos anteriores teve que pegar as primeiras parcelas junto com as férias para poder quitar algumas dívidas. Não dessa vez.

- Mããããããããããe !!!
- Oi meu filho.
- Cheguei.
- Percebi. Precisa gritar tão alto.
- Mãe, é possível gritar baixo?
- Hããã?
- Deixa pra lá. O que a senhora está fazendo?
- A janta. Estou fazendo...
- PARA !!!! Não fala. A senhora está cozinhando............ SALSICHA.
- Ochê. Isso mesmo. Como adivinhou?
- Mãe, a gente come salsicha todos os dias.
- Nada disso. Ontem nós tomamos sopa de pé de galinha. Hmmmm... Só de pensar já dá água na boca.
- Meu Deus, mãe. Não fala esse nome.
- Pé de galinha... pé de galinha... pé de galinha...
- Como alguém em sã consciência pode gostar de pé de galinha?
- Você não sabe o que é bom, meu filho.
- Sei sim. Lasanha. Aiai... Mas faz tempo que a senhora não faz uma lasanha, né? É salsicha no almoço. Salsicha no jantar. Fim de semana é salsicha. Salsicha no hot dog...
- Salsicha no quê???
- Hot dog.
- Róóóóóó...
- Hot dog, mãe.
- Num sei fala isso não, menino. Isso é japonês, é?
- English, mãe. English.
- Por falar em ingrêis, já fez a lição daquela sua escola lá? Meu Deus... Esqueci o nome... Drem... Drom... Drim... Drum...
- Dreaming School, mãe. Dreamiiiiiiiing Schooooool. Entendeu?
- Entendi nada. Mas e aí? Como andam as aulas?
- Muito legais. O professor é dez.
- Que bom. Agora deixa a sua mãe voltar para a cozinha.
- Não senhora. Pode ficar aqui.

Beard vai até a cozinha, desliga o fogão e pega o telefone. Irá ligar para Freckles.

- Alô?
- Freckles?
- Hi, Beard?
- Tudo bem?
- Tudo. O que manda?
- Vem aqui pra casa.
- Ah não. Tá tarde já.
- Mas são 6 da tarde.
- Cheguei atrasada ontem por sua causa. Não vou me atrasar de novo.
- Para de bobagem. Vem pra cá vai.
- Aiai... O que eu faço com você, hein?
- Olha que eu respondo.

Meia hora depois os três estão na sala. Beard está de pé enquanto sua mãe e Freckles estão sentadas no sofá.

- Meninas... Minhas meninas... Tenho um anúncio a fazer.
- Meu Deus, Beard. Quanto drama. Fala logo.
- Ok. Sem mais delongas...

Beard tira do bolso um maço cheio de notas de cinquenta.

- Oh meu Jesus. Obrigado meu Senhor. Oh Deus maravilhoso. Meu bebê recebeu o dinheirinho dele e...
- Mãe !!! NÃO SOU MAIS BEBÊ.
- É sim. É, foi e sempre será meu bebê.

Freckles está quieta. Só observando a conversa. Beard a segura pela mão e a puxa para o seu lado.

- Tá rindo do que?
- De vocês dois. Acho legal.

Beard então a abraça forte e lhe beija. Quando eles param de se beijar, percebem que a mãe dele está bem próxima. Os dois tomam um susto.

- MÃE !!!!
- O quê?
- Precisa chegar tão perto?
- É que ela é tão bonita.
- Tá. Mas não precisa chegar tão perto. Senta lá no sofá. Você também, Freckles.

Ele então tira do bolso um pedaço papel. É um folheto com o logo de uma pizaria.

- Hoje iremos comer pizzaaaaaaaaaa...

Silêncio na sala.

- Vocês ouviram o que eu disse?
- Sim.
- Eu disse que iremos comer pizza.
- Ok.
- Essa é a reação?
- Ah, eu prefiro pé de galinha. Sobrou alguma coisa de ontem. Estava uma delícia.
- NÃÃÃÃÃOO.

Mais silêncio na sala.

- Hoje iremos comer pizza. Tenho dinheiro e quero comer pizza. Sonhei com pizza essa noite. Pensei em pizza no café da manhã. VAMOS COMER PIZZA.
- Ok. Não precisa ficar nervoso.

Beard pega o telefone e liga para a pizzaria.

- Quero você, boa noite.
- Como é que é?
- Quero você, boa noite.
- Como assim moça ‘você me quer’?
- Esse é o nome a pizzaria.
- Aaaahhhh bom. Bem, gostaria de pedir uma pizza.
- Não diga. Sério? Qual sabor?
- Quero uma pizza de... Só um minuto...

Ele se vira em direção as meninas e pergunta.

- Garotas, qual sabor?
- Ah sei lá. Mussarela.
- Eu quero calabresa.

Beard fala com a moça da pizzaria.

- Moça, vou ter que desligar. Já já eu ligo.
- Liga sim, por favor, porque o que mais quero é você.
- O quê?
- Click.

Beard então começa uma conferência.

- Mãe... Freckles... Mussarela e Calabresa não.
- Por que não?
- A gente sempre come de mussarela e calabresa.
- E daí?
- Vamos mudar o sabor. Hoje eu tenho dinheiro para comprar as pizzas da coluna 2, acima dos R$ 17,00.
- Mas Beard, não é o valor e sim o sabor.
- Eu sei, princess. Mas hoje podemos pedir qualquer sabor. E... mãe, aonde a senhora tá indo?
- Pra cozinha. Terminar a minha salsicha.
- Nada disso. Hoje é pizza.
- Tá bom. Então quero pizza de calabresa?
- Não mãe. Nada de calabresa. Nem mussarela.
- Que bom. Não gosto de mussarela mesmo.
- Por que a senhora não gosta de mussarela?
- Porque fica grudando na minha dentadura. Aqui nessa parte. Olha aqui oh...
- MÃÃÃÃEEE !!!! Põe de volta a dentadura. Meu Deus.
- Perdi a fome.
- Não, Freckles. Perdeu nada. Vamos olhar o panfleto e checar outros tipos de pizza.
- Tá. Olha essa aqui. Parece boa. Americana: molho, mussarela, milho e... Ah não...
- O quê?
- Tem bacon. Não como bacon.
- Como assim? Você come pé de galinha, mas não come bacon?
- Engorda.
- Meu Deus. Ok. E essa aqui? Camponesa: mussarela, frango, tomate, gorgonzola e...
- Não gosto de gorgonzola.
- Ok. E essa... MÃÃÃEEE !!! Pode voltar aqui... Ok... Essa. Havaiana: molho, mussarela, lombo e abacaxi.
- Abacaxi??? Credo. Tô fora. Pizza doce não rola.
- Achei. A minha preferida: peruana. Vem mussarela, atum, cebola e orégano.
- Deixa eu ver o panfleto... Hmmm... parece boa... Perae...
- O que foi agora?
- Tem ervilha. Eu não suporto ervilha.
- Ai Meu Deus, Freckles.
- Desculpa. Eu não suporto. Vou fazer o quê?
- Ok. Você escolhe.
- Você está nervoso?
- Claro que não.

Freckles beija Beard.

- Escolha a pizza que você quiser, tá bom?
- Ok, mussarela.
- Menos mussarela.
- Ok. Essa aqui oh: Marinara. Ela vem com mussarela, atum, tomate e provolone. Que tal?
- Perfeito.
- Mãe, a senhora vai querer de... Cadê minha mãe?
- Na cozinha.
- MÃÃÃEEE...
- Deixa ela.
- Tá bom. Deixa eu ligar para a pizzaria.

Beard pega o telefone e liga para a pizzaria.

- Quero você toda, boa noite?
- Como?
- Ah, é um rapaz. Quero você todo, boa noite?
- É da pizzaria?
- Sim.
- Mudou o nome? Não é Quero você?
- Sim.
- Você falou Quero você todo.
- Senhor, qual a diferença? O importante é que eu quero você.
- Que nome mais maluco.
- Senhor, posso ajuda-lo?
- Quero uma pizza.
- Sério? E qual seria o sabor?
- Marinara.
- Ok. E o recheio da borda? Catupiry ou cheddar?
- Só um minuto. Freckles, qual a borda?
- Borda?
- Isso. Pode ser de catupiry ou cheddar.
- Não gosto de nenhum dos dois. Prefiro sem borda recheada.

Silêncio.

- Beard, tudo bem?
- Sim. Está tudo ótimo. Deixa eu pedir a pizza...... Moço???
- Continuo aqui, senhor. Pode pedir.
- Quero a pizza Marinara, mas sem a borda recheada.
- Impossível.
- Como assim?
- Desde 2014 há uma lei que exige que todas as pizzas sejam com borda recheadas.
- É sério isso?
- Não sei. Foi o meu patrão que disse. Mas se ele falou tá falado.
- Todas as pizzas?
- Todas, exceto duas.
- Quais?
- Mussarela e calabresa.
- Repete, por favor.
- Mussarela e calabresa.

Beard tem um ataque de risos. O rapaz da pizzaria não está entendendo nada. De repente sua mãe aparece com um prato na mão.

- Mãe, o que é isso?
- Não é pra você.
- É pra mim, dona mãe do Beard?
- Sim, querida. Achei na geladeira.
- Não brinca comigo. Isso é... é...
- PÉ DE GALINHAAAAAA

Freckles dá um pulo do sofá com um sorriso de orelha a orelha.

- Hmmm... que cheiro bom.
- Vem comigo até a cozinha. Vamos lá devorar esse prato.
- Só se for agora. Mas espera...

Ela vai até Beard e dá mais um beijo nele. Depois acompanha a dona mãe do Beard até a cozinha. O rapaz da pizzaria ainda espera na linha.

- Senhor???
- Oi. Você ainda está ai, rapaz?
- Claro. E vou dizer, pé de galinha é uma delícia.
- Deve ser... deve ser...
- O senhor ainda vai pedir?
- Claro.
- O que será?

- Me manda uma pizza meia calabresa e meia mussarela.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Natal


Natal 
A parte do ano que ela mais gosta. É a época de rever alguns irmãos e irmãs, e claro, reunir todos os meninos. Bem, não mais tão meninos assim. Alguns já têm até filhos. Filhos dos filhos. Mais conhecidos como netos. Seus netos. Como ela ama aqueles meninos. Ah, e não podemos nos esquecer da menina. Não, não estou falando de neta porque, por mais que ela quisesse, seus filhos falharam em lhe dar uma. Estou falando da filha que ela foi buscar na Bahia. Uma menina bonitinha, que até há pouco tempo brincava de boneca.
Ela levanta cedo e vai sozinha ao mercado. Enquanto percorre o caminho sente um pouco de cansaço. Ela para perto de um carro para recuperar o fôlego. É o coração que não responde mais como na sua mocidade. No caminho recebe o cumprimento dos transeuntes que na sua maioria são amigos que, como ela, vivem no bairro há mais de 35 anos.
Fôlego recuperado, ela chega ao mercado. Apesar do horário o local encontra-se lotado. Um desavisado para perto e pergunta sobre o seu marido. Ela fica em silêncio e, respirando fundo e segurando uma lágrima, diz que ele não está mais entre eles. O homem se desculpa e sorrateiramente se afasta. Ela não o culpa. É muito recente ainda. Aquela situação inusitada, mas não inédita, a faz voltar alguns anos no tempo, quando naquele mesmo mercado, eles compravam juntos as guloseimas do Natal. Ela tem a cena bem viva em sua memória. Ela procurando o melhor pernil e ele atrás da melancia perfeita. Ela se lembra perfeitamente de quando ele pegava melancia por melancia e, como um médico examinando o paciente, meticulosamente colocava a orelha esquerda próxima a casca e fazia aquela cara de homem compenetrado. Depois dava dois tapas nela e dependendo do som emitido sabia se estava boa ou não. Ela não tinha a menor ideia se aquele ritual funcionava ou se era pura sorte, mas que ele escolhia as melhores melancias, ah escolhia.
Depois de separar um belo pedaço de pernil e frutas maduras e suculentas, dirige-se ao caixa. Conversa com uma das suas irmãs. Não de sangue, mas irmã em Cristo. Falam sobre o verdadeiro significado do Natal. Lembram do nascimento de Jesus. E depois falam sobre sua morte e ressurreição. Discorrem sobre a frieza do Natal nos dias de hoje. De como uma data tão especial se transformou em algo tão banal. A mulher do caixa a chama pelo nome. É a vez dela. Pergunta como a moça sabe o seu nome. E ela prontamente responde: e como não saber? As duas conversam enquanto a moça passa a mercadoria por uma máquina que emite um bip. E enquanto isso um rapaz novinho e com o rosto cheio de espinhas vai empacotando. Na volta para casa precisa parar mais duas vezes. Coração realmente não está aguentando mais. A qualquer momento ele pode desistir de bater. Ela só pede que não seja agora, pois quer passar mais um Natal e Ano Novo com seus meninos. Ah, e sua menina.
Já é quase meio-dia. Ela ajeita a cozinha. Panelas espalhadas na pia e sobre a mesa. Sua menina não tão menina chega da casa da amiga e percebe que ela está chorando. Pergunta o porquê daquelas lágrimas. Ela diz que é saudade do seu velho. Nesse momento ele estaria com ela, muito provavelmente descascando batatas. E cortando cebolas. E tomando sua cervejinha. A menina então abraça sua mãe e diz que está tudo bem. Ela pode chorar. Aliás, ela também começa a chorar. Depois de alguns minutos de abraços, soluços e choro, as duas decidem que precisam voltar a cozinhar. O pernil não ficará pronto no horário caso não acelerem o processo. Alguém chama no portão. É a Dorinha. Beijos, abraços, cumprimentos e... mão no pernil. Outra pessoa chama no portão. É a Raimunda. Beijos, abraços, cumprimentos e... mão na maionese. Aquele ambiente acolhedor a faz ter forças novamente. O coração volta a bater forte. Não será hoje que ele irá desistir de bater.
Fim de tarde e início de noite. As pessoas começam a chegar. Primeiro o seu irmão. Mais tarde sua irmã. Risadas altas. Hora de colocar o papo em dia. Falam bem de alguns. Mal de outros. Lembram de histórias de quando eram crianças. Lembram dos pais. Silêncio por alguns segundos. Então os filhos começam a chegar. Um a um vão tomando seu lugar na casa. E com eles chegam os netos. E com os netos chega a correria. E com a correria chega a gritaria. E as duas se juntam a alegria.
Quase meia-noite. Mesa posta. Todos a postos. Alguns minutos para o ritual de beijos, abraços, trocas de caricia e queima de fogos de artifício. Ela está cansada. Não foi um dia fácil. Ao contrário. Quer deitar um pouco. Não, quer deitar um muito. O corpo não responde mais como antes. Ele fala mais alto do que seus pensamentos. Num dia normal já estaria dormindo. Mas não hoje. Hoje não é um dia normal. Ela olha para o que está acontecendo. Não tem como não se emocionar ao ver irmãos, filhos e netos ali. Todos reunidos na sua casa. Ela gosta disso. Isso lhe dá forças para aguentar mais um pouco.
Meia-noite. FELIZ NATAL é dito e repetido por mais de 5 minutos. Muitos abraços dentro de casa. E fora de casa também. Os vizinhos se aproximam. A rua está lotada. Diferentemente do ano passado, hoje não chove. Está um clima gostoso. Depois de beijar e abraçar todos os netos, filhos, irmãos e irmãs, é hora de confraternizar com o pessoal da rua. E depois com o pessoal da rua de trás. E depois com o pessoal da rua da frente. Ela não está só. Seus filhos a acompanham. Seus netos também. E os filhos dos vizinhos. E seus netos.
Uma da manhã. Seus pés doem. Sua coluna também. Está com um pouco de dor de cabeça. Não deveria ter andado tanto. Precisa sentar um pouco. Dois filhos já foram embora. Tinham outras pessoas para abraçar. Outros dois ficaram. Ela olha para a mesa e ainda sobra mais da metade do pernil. E vários cachos de uva. Ela olha para a melancia. Está praticamente intacta. Ela então corta um pedaço. Por alguns segundos saboreia a melancia só com os olhos. E não consegue evitar. Chora novamente. A lembrança ainda é viva. Sente algo quente nas suas pernas. Olha para baixo. É o Derick. Ela o pega no colo e lhe dá um pedaço da melancia. Ele mais que depressa tira um pedaço enorme, e com a boca cheia de melancia lhe dá um beijo e diz: te amo vovó. Ela ri. Ela  chora. Ela ri e chora.
Duas da manhã. Todos se foram. E prometeram estar de volta para o almoço. Afinal, não há nada mais gostoso do que o famoso prato francês restodontê. Ela precisa descansar. O médico disse que ela não pode abusar. O coração está grande demais devido sua doença. Seria cômico senão trágico. Irônico até. Morrer por causa de um coração enorme. Mas não é isso que as mães têm? Aliás, é impossível medir o tamanho do coração de uma mãe. Ele é grande, enorme, gigantesco, colossal, descomunal, desmesurado, imenso. Ele também é magnífico, formidável, sublime, eminente, tremendo, hercúleo. E também pode ser botaréu, arcobotante, contraforte e pilar.
Ela deita. Fecha os olhos.
Ela dorme...
*****
Almerinda de Brito Reis. 
Esse é o nome dela. Bem, alguns a conheciam como Santinha. 
Ela gostava de dar presente, mas preferia estar presente.
Há uma diferença nada singela nesses verbos.
 Dar presente demanda pôr a mão no bolso e comprar.
 Estar presente demanda pôr a mão no celular e fazer uma ligação. Mas veja bem, ligar e não passar uma mensagem. Muitos hoje nem se lembram dessa função do celular.
 Dar presente demanda comprar um carro de brinquedo.
 Estar presente demanda pôr a mão no volante do carro real e visitar familiares e amigos.
 Dar presente demanda gastar tempo em shoppings, em filas quilométricas.
 Estar presente demanda passar tempo (não gastar) com familiares e amigos.
 Dar presente pode ser frustrante caso você compre algo que a pessoa não goste.
 Estar presente nunca é frustrante, pois não há ser humano que não goste de um abraço, de um afeto. E se há alguém que não goste de abraços é porque  essa pessoa não está acostumada a abraçar e ser abraçado.
Que nesse Natal você, mais do que dar um presente, que você ESTEJA presente.

FELIZ NATAL 
MERRY CHRISTMAS