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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Cidade Maravilhosa

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Era o seu primeiro dia numa cidade grande. Por anos ela sonhava com esse momento. Contava os dias. Sua mãe também contava. Mas não os dias e sim os causos de pessoas que vivem nos grandes centros urbanos, se aglomerando umas sobre as outras como formigas e morando em prédios que são tão altos que chegam a arranhar os céus. Ela sempre contava histórias de pessoas que eram sequestradas, estupradas, assassinadas. E como moradora da pequena cidade Passa e Fica, localizada nas entranhas do estado do Rio Grande do Norte, queria que sua filha ficasse e por isso temia o momento da partida. Não queria ver sua filhinha batendo asas e deixando a pequena cidade, pois ela mesmo, como gostava de lembrar, nunca tinha colocado os pés fora da cidade. Nunca teve vontade. Já Marisa, diferentemente de sua mãe, não via a hora de conhecer outros lugares. Outras pessoas. E o carnaval era a chance para isso.

Marisa cresceu ouvindo falar sobre essa cidade. Uma cidade tão diferente e tão especial que era conhecida como Cidade Maravilhosa. Quando via na TV o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, a praia de Copacabana, ficava de boca aberta. Precisava conhecer a cidade do Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A cidade da garota de Ipanema. Aliás, ela sonhava em ser a tal garota. E tinha potencial para isso. Era bonita, inteligente e sensual. Guardava no bolso um cartão postal de um rapaz que esteve de passagem pela cidade. Ele disse para Marisa procurá-lo caso fosse um dia para o Rio de Janeiro. Faria questão de mostrar toda a cidade. Marisa ficava embasbacada cada vez que ouvia falar sobre a favela da Rocinha. Imaginava os morros com pessoas indo e vindo dia e noite. Um local onde pulsava vida. Uma outra coisa que chamou a atenção de Marisa, além do cavalheirismo, foi a beleza do rapaz carioca. E marcou muito o que ele disse quando estava deixando a pequena cidade de Passa e Fica. "Venha para o Rio. Prometo que você nunca mais terá vontade de ir embora. Coisas inesquecíveis e inenarráveis acontecerão com você”.   

Esse dia havia chegado. Marisa estava no Terminal Rodoviário Novo Rio, a nove quilômetros da famosa praia de Copacabana. Estava toda empolgada. E não estava sozinha.

- Wow. Olha isso tudo. Que demais.
- Marisa, to com medo.
- Medo do que?
- É muita gente. Gente que não acaba mais.
- Oxe. Cidade grande é assim mesmo. E estamos na maior de todas.
- Onde mora o seu amigo? Olha aí no cartão postal.
- Já olhei. Fica perto da rodoviária. Dá para irmos andando.
- Não é melhor ligar pra ele antes?
- Não. Vamos fazer uma surpresa.

20 minutos depois...

- Pronto. Chegamos. Vou tocar o interfone.
- Pois não?
- Sou eu. A Marisa.
- Marisa??? Não conheço nenhuma Marisa.
- Você não se lembra de mim? Você passou pela minha cidade alguns anos atrás e disse que eu podia te procurar quando viesse para o Rio.
- Desculpa, mas... Eu estou sempre viajando.
- Você falou que eu era linda, podia ser até atriz de cinema.
- Olha... Sem ofensa... Mas digo isso para um monte de mulheres.
- Você me deu um cartão postal... Me comparou com a Camila Pitanga.
- Camila Pitanga... Camila Pitanga... Lembrei agora. Maneiro. Você é aquela morena gostosa pra cara... Digo, aquela morena bonita, de cintura fininha e cabelo longo, super gosto... digo, bem jeitosinha.
- Isso, sou eu mesmo. E trouxe uma amiga comigo.
- Você o quê? Ai meu Deus. Minhas preces foram atendidas. Calma lá. Vou abrir a porta. ...Clack... Abriu?
- Sim.
- Podem subir. Estou no 7º andar, apartamento 71-B.
- Ta bom. Estamos subindo.

Marisa estava super feliz por reencontrar o rapaz do cartão postal. O nome dele era Dinho. O nome não estava escrito no cartão postal, mas não precisava, pois ela nunca iria esquecer esse nome. Ela não disse nada para Marta, sua amiga de viagem, mas a cidade não era a única razão de estarem ali. Ela estava apaixonada. Não conseguia parar de pensar no rapaz da cidade grande desde o primeiro momento que pôs os olhos nele. O seu coração batia forte. O coração de Marta também, mas por razões diferentes. Ela estava era com medo de tudo aquilo. Naquela cidade tudo era multiplicado por 10: carros, pessoas, barulho.

- Olá. Tudo bem?
- Oi Dinho.
- Wow. Você lembra o meu nome.
- Não tinha como esquecer.
- E qual o nome da sua amiga?
- Meu nome é Marta.

Os três se cumprimentaram. Dinho deu três beijos na bochecha de cada uma delas, o que gerou estranheza por parte de Marta. “Por que tantos beijos? Podia ser só um, né? Mania estranha”, pensou ela. Dinho mostrou o apartamento, pediu licença e foi tomar um banho. Depois de 20 minutos apareceu na sala somente de toalha. Marta tampou os olhos enquanto que Marisa ficou imaginando o rapaz sem aquela toalha. Os três comeram um resto de pizza da noite anterior e saíram para conhecer a cidade.

Depois de um tour pela cidade, tendo Dinho como guia, voltaram para o apartamento. Já passava das 2 da manhã e elas estavam exaustas. Porém Marta não estava mais com medo. Ao contrário. Agora estava era empolgada com tudo que tinha visto. Era uma legião de turistas que vinham de todos os lugares do mundo. Acabaram fazendo amizade com um grupo de americanos que estavam no Rio pela primeira vez. Protagonizaram cenas hilárias. Tanto elas quanto os gringos. Nunca haviam rido tanto. E quanto mais Marisa prestava atenção em Dinho, mais apaixonada ficava. Ele não cansava de explicar a história de cada lugar daquela cidade. E era incrível como sabia tudo sobre tudo e todos. E quando paravam para comer ou beber não deixava que elas pagassem nada. Até aquele momento elas não tinham colocado a mão no bolso.

Depois desse tour maravilhoso pela cidade não estavam apenas cansadas, mas também tontas. Pela primeira vez haviam bebido. E muito. No começo resistiram. Disseram que não iriam ingerir bebida alcoólica. Porém, depois de serem persuadidas por Dinho, acabaram experimentando pela primeira vez a famosa caipirinha carioca. Simplesmente adoraram. Repetiram a dose usando frutas diferentes. No fim da contas haviam consumido caipirinha de limão, morango, pêssego, caqui, quiuí...

Depois de uma volta pela praia de Copacabana decidiram parar na Dona Empada X. Marisa comeu a famosa empada de siri e teve a grata sensação que poderia morrer naquele momento que morreria feliz. Nunca havia comido empada tão saborosa. Marta, ao contrario, não conseguia ingerir mais nada, fosse liquido ou solido. Estava com um enjoo terrível. Que empada de siri o que. Queria era deitar.

Finalmente estavam de volta ao apartamento. Marisa não via a hora de tomar um banho e cair na cama. Marta pensava o mesmo. Já Dinho estava tranqüilo, sereno e com um sorriso no rosto de menino maroto. Pensando bem, Dinho quase que não bebeu. Marta deitou no sofá e ali ficou. Não percebeu que ao seu lado havia um rapaz de camiseta laranja. Ele chegou ao apartamento 1 hora depois que eles saíram. E não estava sozinho.

- Wow. Que noite. Está tudo rodando.
- Mas é uma sensação boa, não é?
- Como você sabe? Você não bebeu nada.
- Não bebi nada hoje. Mas já fiquei bêbado. Fala se não é bom.
- Bem, para falar a verdade... Espera aí...
- O que foi?
- Que pó branco é esse na mesa?
- Isso? É açúcar.
- Não não não. Eu conheço açúcar. To bêbada, mas nem tanto.
- Me pegou. Isso é cocaína.
- Cocaína ??????
- Isso. Eu pedi para os meus amigos trazerem enquanto estávamos fora.
- Amigos???

3 homens se aproximaram. O de camisa laranja que já estava na sala, sentado no sofá, e outros dois que saíram do quarto de Dinho. Três mal encarados. Marisa não estava gostando nada daquilo. Tentou acordar Marta. Sussurrou no seu ouvido. Nada. Deu uns beliscões. Nada. Começou a bater nela. No rosto, nos braços, nas pernas. Marta finalmente abriu os olhos. E quando viu os rapazes pensou estar tendo alucinações. Até que um deles encostou perto dela e puxou seu cabelo.

- Hey. O que você está fazendo??? 
- Vamos dar as boas vindas.
- Por favor, não nos machuquem.
- Perdeu, gatinha....
- Nãããããoooo....

Dinho se juntou ao comparsa que estava segurando Marta pelos cabelos enquanto os outros dois bandidos seguravam Marisa. Ela não acreditava no que estava presenciando. Sua melhor amiga sendo estuprada. Ela tentou fechar os olhos, mas um dos rapazes gritou pedindo que ela os abrisse. E depois falou que ela seria a próxima. Nesse momento Marisa não conseguia pensar em mais nada a não ser nas causos que sua mãe contava sobre pessoas que eram sequestradas, estupradas, assassinadas. Enquanto isso Marta gritava desesperadamente por socorro, mas seus gritos eram abafados pelo som das marchinhas, cantadas incansavelmente pelos foliões do mundo todo que naquela semana se encontravam ali, na Cidade Maravilhosa. 

"Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamaãããe eu quero mamar. Dá chupeta, dá chupeta, dáááááá chupeeta pro bebê não chorar.”

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

My head hurts

Wow. My head hurts. What happened? I can’t remember anything. Anything at all. What’s this smell? Holly shit. I shitted in my own pants... Laughing... The party must have been pretty wild ‘cause I don’t remember this shit happening. Well, I have to get myself all cleaned up. Uh… Uh… Uh… What the… ? I’m all tied up.

A noise coming from the kitchen

Hey... Screaming... Heeeey... Is there anybody out there? Mike? Miiiiike? Is that you man? Come over here, dude. I could use a hand, you know. I don’t know why but I’m all tied up. Come here and untie me, will ya?

Silence

What are you doing man? Get your freaking ass up here. I ain’t kidding man. Help me out, please. 

Someone shows up

Oh finally… Hey, why are you wearing a mask? Was it a costume party? Gosh, I can’t remember. And my head hurts like hell… Is this your place ‘cause I can’t recognize it. Never been here before. Hey, have you seen Claire? Where is she? Oh man, she’s gorgeous, isn’t she? Think I’m in love man. But don’t tell her, alright? I’ll declare my love for her on X-mas next week. What do you think? Should I do that? Shit, my head really hurts. I know you are not the romantic type, neither am I but I really like her. I’ll invite her to France’s. They serve this special bologna sandwich which is simply divine. She likes eating, you know. I think she’s gonna love it. What do you think?

Silence

What’s wrong with you man? Why don’t you talk? Why do you keep staring at me? Come on man. Say something, goddamn it. And please, take this freaking off. It ain't Halloween. Besides that, it is ridiculous. It makes you look like a sado or something. Hey, where you going? Come back here. Don’t leave me alone? Don’t… shit.

2 minutes later...

There you are. Oh… oh… oh… Why do you have a knife in your hand? Of course, you are going to untie me, right? Sorry. I can’t think straight with this pain in my head.
Hey… hey… Why are you touching me? Jesus man, talk to me and stop touching me. You are supposed to untie not touch. Why are you touching my legs now? What are you doing? Knock it off man. What’s wrong with you? Why don’t you talk? Hey… Why are you cutting my pants? And why in the name of God do you keep touching my legs? Oh no. Hell no. are you… you know… homo? Are you a fag? Are you gay? Goddamn it Mike. You gay? I didn’t see it coming. But you know what? I don’t care. I have a bunch of gay friends. I get along with all of them. Not the way you get along if you know what I mean. You see, I am straight. I like chicks with big boops like Claire. She has those beautiful big boops and I… hey, where are you going?

Crazy bastard. What the hell does he want with that knife. And what is this touching thing all about? Oh sweet Jesus. Please help me. I don’t know what’s going on but I definitely don’t wanna die. I promise you I’ll go to the church every Sunday morning. And I won’t smoke marijuana anymore. It’s gonna be difficult ‘cause I love that shit. You know I do, right? Of course you know 'cause you’re the Lord. So please see me through this and don’t let me die. Let me outta here. 

5 minutes later...

Oh, you’re back. Please, untie me man. This is not funny anymore.  Actually, it is getting less and less funny. I need to clean myself up. I smell shit. Oh no, you and the touching thing again. And now you are marking my thigh with this blue marker. Why are you doing that? Stop with this sick shit. Please. Oh my head hurts. Oh great, you’re leaving again. That’s fucking great.

Oh God. I gotta get outta here. Mike got crazy. But I can’t move. And my head hurts. Jesus. Help me, please. Pleeeeease...

1 minute later...

Where were you, man? What the hell is going on here? Untie me, please. Let me go... Let me... Wait… Is that an axe in your left hand? And in the other hand… what’s that? What the fuck is that? OH GOD... Is that what I think it is??? Is that... Is that... OH MY GOD OH MY GOD OH MY GOD… No no no no no.... You gotta be fucking kidding me... That’s… that’s… CLAIRE'S HEAD... OH MY GOD… Crazy bastard. Why did you do that? You killed her you crazy sick bastard. YOU KILLED CLAIRE… my Claire. Wait... Please, wait...Oh… what you gonna do with this axe, uh? ANSWER ME... Please, please, please... Don’t do that, pleeeease. Don’t that… AAAAAAAAAAHHHHHHH... YOU CRAZY MOTHERFUCKEEEER... I’m gonna kill you. Panting... I swear to God I’m gonna kill you. I’m gonna….. AAAAAAAAAAHHHHHHH !!!!!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Maior churrasqueira do mundo



Antes que você queira me processar por propaganda enganosa, preciso informar que esse texto não fala sobre churrasco. Pelo menos não de forma veemente. Na verdade o tema surgiu quando estava almoçando e vi a chamada da reportagem na televisão. Nosso tema aqui é outro. Falaremos sobre o bom e velho jeitinho brasileiro. Pera lá. Preciso reformular isso. MAU e velho jeitinho brasileiro.

No último domingo, no programa do Fantástico, assisti à uma reportagem que me fez ter tristeza de ser brasileiro. Me fez pensar no porquê de tantas falcatruas. Por que temos que tentar tirar vantagem de tudo? E pior, de todos? Por que a ideia maldita de subir na vida, de ser alguém, de ganhar um salário bom às custas de esquemas nebulosos e que prejudicam a vida de pessoas inocentes? Por que não tentar subir na vida dignamente e viver com aquilo que recebemos? Não está satisfeito com o que ganha? Vá atras de novas oportunidades. Mude de emprego. Faça um curso profissionalizante. Estude inglês, espanhol e mandarim. Se você for bonitão e sarado ou bunduda e peituda, opa, pode participar de um reality show. Mas se for feio, não se preocupe, pois também há espaço para os feios na televisão. O que não falta são opções para busca algo melhor, mas pelo amor de Deus, NÃO ESCOLHA O CAMINHO MAIS FÁCIL E NÃO PREJUDIQUE ALGUÉM PARA CHEGAR ATÉ LÁ.

De volta ao programa. Lavradores rurais de todas as partes do Brasil estão sendo enganados e roubados por advogados que deveriam cuidar do interesse dos seus clientes. Pessoas idosas, incapazes, muitos sem nenhuma escolaridade são ludibriadas por pessoas que tiveram o privilégio de estudar num país de semi-analfabetos. Nossos idosos estão caindo na lábia desses salafrários, pois como não 'entendem de lei' deixam essa burocracia toda para os homens de terno e gravata. E como funciona o esquema? Pequenos lavradores rurais dão entrada no INSS com o pedido de aposentadoria e muitas vezes tem o pedido negado. A Justiça leva até 2 anos para julgar o caso. Quando o lavrador ganha a causa, tem direito a receber o que chamam de retroativos, isto é, os valores atrasados enquanto o caso era julgado. E é nesse momento que percebem que foram enganados, pois quando vão ao banco sacar o dinheiro não encontram o respectivo depósito porque o advogado se antecipou e recebeu o dinheiro no lugar do aposentado, repassando 50% ou as vezes NADA.

Seguem alguns casos:

Dona Ercília
Dona Ercília tinha direito a receber R$ 12.000,00 e usaria esse dinheiro para acertar suas dívidas, comprar comida e remédios. Recebeu apenas metade disso, isto é, R$ 6.000,00. A outra metade ficou com o advogado Romilson Nogueira que disse ter cobrado apenas 20% de honorários. Pelo jeito ele não sabe fazer conta e dona Ercília continua devendo e tem dificuldades para comprar seus remédios. Consequentemente continua trabalhando na roça para tentar de uma vez por todas suas dívidas.


Geraldo e Rita Balbino
Geraldo Balbino caiu da escada e acabou machucando a coluna e não pode mais trabalhar na roça. Recebeu de atrasados R$ 17.300,00. Quer dizer, tinha que receber. Todo o dinheiro foi para a conta do seu advogado. Sua mulher, Rita Balbino, aos prantos disse: "É muito difícil moço. No café da manhã a gente come taioba. No almoço é mingau de taioba. A noite, mais taioba. Meus filhos até pouco tempo atrás não sabiam o que era biscoito".


Pedro Baleiro se aposentou por invalidez por ser portador da doença de Chagas. Tinha direito a receber R$ 16.000,00. Ficou feliz porque com o dinheiro iria comprar os remédios para tratar sua doença. Remédios esses que não são baratos. Mas ao chegar no banco percebeu que só havia R$ 8.000,00 na conta. E ainda viu o valor mensal que recebe de aposentadoria ser dividida com o advogado por 12 meses. Nesse período ele pagou todo mês R$ 365,00 para o ilustre advogado Fabio Oliveira de Souza. Quando questionado ele disse "Ninguém é obrigado a trabalhar com a gente. Eles que nos procuram e são avisados dos valores." Será mesmo que são avisados?

Seu Domingo de Sá recebeu R$ 20,00
Seu Domingo de Sá perdeu as pontas dos dedos quando trabalhava na plantação de cana de açúcar. Tinha direito a receber R$ 9.300,00. Não sabia que havia ganho a causa. Foi um oficial da justiça que o avisou. Quando chegou ao banco não havia nenhum deposito na sua conta. Todo o dinheiro foi para a conta dos advogados Leonardo de Almeida Magalhães e Matheus B. Campelo Pereira. Quando questionado pelo lavrador sobre o dinheiro, Leonardo disse disse: "Calma lá. Não ficamos com todo o dinheiro. Ainda tem R$ 20,00 para o senhor". O repórter perguntou ao seu Domingos porque ele assinou a procuração. "A  gente não sabe ler direito né. Ele mandou assinar e eu assinei".

Dona Iracema mora numa casa com o teto quase cedendo e precisa de dinheiro para comprar remédios. Ficou feliz quando soube que receberia R$ 20.800,00 de aposentadoria. Iria dar um jeito no teto da casa e finalmente comprar os remédios. Mas a alegria durou até o momento de puxar o extrato bancário. Os mesmos advogados de seu Domingo já haviam recebido o dinheiro que por direito pertence a dona Iracema que disse chorando: "Num creditei. Nossa Senhora, a gente passa até fome as vezes".


Catarina Marques
Catarina Marques da Silva entrou com pedido de aposentadoria por invalidez porque quase perdeu o pé quando trabalhava na lavoura. Com dificuldades para andar e precisando comprar remédios caríssimos, teve o direito de receber R$ 28.000,00. Porém, só viu a cor da metade pois os outros R$ 14.000,00 foram para a conta do advogado. Depois de Catarina reclamar e chorar muito, ele decidiu dar mais R$ 1.000,00. Que homem de bom coração.


Esses são casos reais de brasileiros que poderiam ser nossos parentes. E você gostaria de ver o seu pai, mãe, avô ou avó serem enganados dessa maneira? E a justiça? Essas pessoas trabalharam boa parte da vida e agora o que querem é apenas curtir os últimos anos de vida de forma digna. E não estou falando de grana no bolso para viajar pelo Brasil e mundo, o que é válido e seria maravilhoso se todos pudessem fazer isso. Estou falando de ter um dinheiro para ter o básico: comida na mesa, roupa, remédios. Isso é o minimo.

Muitos assistiram a essa matéria e como eu estão revoltados. Alguns disseram que queriam entrar na televisão e dar uns socos naqueles safados. Aliás, é bom deixar claro que não estou dizendo que todos advogados são safados. Ao contrário. Há advogados honestos e que ajudam sim a sociedade, até em casos como os citados acima, onde eles muitas vezes recebem apenas 20% de honorários (o que é o mínimo que a OAB exige) ou muitas vezes nem cobram pelos serviços prestados (pro bono) deixando todo o dinheiro para os aposentados. Para esses eu tiro o chapéu e digo obrigado por serem bons cidadãos. Minha revolta é contra esses pilantras que tiram proveito da humildade, da idade e da falta de escolaridade de muitos dos nossos velhinhos. Como será que eles dormem a noite sabendo que o carro que está na garagem ou a casa bem mobiliada que eles têm é fruto de um esquema asqueroso que faria o Coringa do Batman ter nojo deles.

Mas há luz no fim do túnel. Na cidade de Guanambi que fica na Bahia (cidade natal da mãe desse que vos escreve) 28 advogados estão sendo processados pelo Ministério Publico e se condenados serão obrigados a devolver em dobro o que pegaram a mais. É claro que eles ainda podem recorrer, mas espero que o juiz do caso seja duro e humano e perceba a injustiça feita contra os nossos velhinhos.

Ah é. A maior churrasqueira do mundo. Quando penso nela imagino esses advogados rindo à toa com a sua taça de cerveja na mão, preparando um belo churrasco com o dinheiro ganho dos aposentados, cantando, sambando e dizendo "Acaba não mundão bão".


domingo, 25 de janeiro de 2015

SEU BARRIGA

Derick, Seu Barriga e Antony


No dia 28 de dezembro de 1948, na Cidade do México, nascia Édgar Vivar, mais conhecido como Seu Barriga, um dos personagens do seriado Chaves. Quem não se lembra dos bordões ‘Tinha que ser o Chaves mesmo’ e ‘Pague o aluguel’. Édgar através da sua graça tocou o coração de milhares de pessoas no mundo inteiro.

Três anos antes, mais precisamente no dia 19 de setembro de 1945, na cidade de Bastos, São Paulo, nascia Carlos Reis, também conhecido como Seu Barriga. Ele não foi tão famoso como seu colega mexicano, mas marcou muitas vidas, principalmente da família Reis e de algumas outras mais que viviam e ainda vivem na Cidade Pedro José Nunes.

Carlos não nasceu com uma barriga protuberante e seu apelido de infância/juventude não era Seu Barriga. Ela foi se formando com o passar dos anos. E como todo homem que possui uma barriga saliente, ele dizia a sua era expressão de experiência.

Meu pai sempre foi um cara cheio de vida, alegria e que gostava de conversar. Tenho ótimas lembranças dele. Lembro de uma foto onde ele está com um uniforme do exército. Está magro, jovem e bonitão. Não sei não, mas acredito que foi aquela foto que fez minha mãe se apaixonar por ele. Lembro também que quando comecei a trabalhar ele fazia questão de me acordar. Todo santo dia. E todo santo dia me acordava meia hora mais cedo, dizendo que eu estava atrasado. Eu levantava correndo, ia para o banheiro para tomar banho e depois, mais calmo e querendo matá-lo, perguntava por que fazia aquilo. ‘Eu faço isso para que você não perca a hora.’  E mesmo com todo esse cuidado eu acabava chegando atrasado às vezes. Naquela época a população de São Paulo já sofria com o transporte público.


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 Meu pai era, infelizmente, corintiano. No entanto não era fanático. Tanto que três dos seus filhos torcem para o Palmeiras e só um, Ronaldo também conhecido como Beiçudo, torce para o Corinthians. Mesmo assim ele gostava muito de assistir aos jogos e nesses dias eu via como uma partida de futebol pode mudar a natureza do ser humano durante os noventa minutos. Meu pai era um homem sossegado e amigo de todos, mas quando começava o jogo... Meu Deus. ‘Como você pode ser tão burro. Toca a bola oh imbecil.’ ‘Vai tomar no... Como pode perder um gol desses?’ ‘Vai pro inferno mesmo viu. Que time horrível esse do Corinthians.’ ‘TOCA A BOLA OH ANIMAL.’ Eu, criança, ficava meio assustado com tanta raiva e palavrão desferidos contra a televisão. O engraçado é que anos depois eu me pegava fazendo a mesma coisa ao assistir aos jogos do Verdão.

 Como disse meu pai era um cara legal e amigo, porém se fizesse coisa errada... a cinta estralava. Perdi a conta de quantas vezes meus irmãos e eu apanhamos. Kkkkk... Dou risada hoje. Kkkkk... Na verdade estou rindo agora por lembrar de tantas surras que tomamos. Mas naquela época não era nada engraçado. Lembro por exemplo do dia que um menino chamado... Chamado... Como era mesmo o nome dele?!?!... Bem, não importa... Esse menino cortou a minha pipa na mão (quem já empinou sabe do que estou falando). Fiquei furioso e fui tomar satisfações. Conversa daqui, xingamento dali, peguei a lata de linha dele e joguei no bueiro. O menino não hesitou: pegou minha bicicleta que estava deitada no chão e saiu pedalando como um crazy maniac. E eu correndo atrás dele também como um crazy maniac. Foi uma cena hilária. Pois esse menino sumiu. Quando meu pai chegou e ficou sabendo da história, me fez ir atrás do menino, dar o dinheiro referente à linha e pegar minha querida bicicleta de volta. Depois me deu uma surra... Meu pai geralmente segurava um braço e o outro ficava livre. E era essa mão livre que eu usava na tentativa de proteger minhas nádegas. Meu pai calmamente dizia: ‘Tira a mão. Tira a mão agora. Senão vai ser pior’.  Mas não tinha como não por a mão. Era algo automático. E eu berrava por socorro. Pedia ajuda à minha mãe e ela nem tchum. Depois dizia que me amava.


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Uma surra clássica dentre tantas aconteceu quando quebramos o vaso favorito do meu pai. Eu, o Nem e o Naldo estávamos brincando de esconde-esconde. O Du tinha saído de carro com meu pai e minha mãe, o que deixou a garagem livre.  Estávamos nos divertindo muito até que o Naldo ou o Nem, não sei ao certo, só sei que não fui eu (eu acho), se escondeu atrás do vaso. Pois bem, na hora de correr para bater um, dois, três, o Nem ou o Naldo bateu no vaso. De repente só ouvimos um pah. Quando olhamos para trás havia vaso, terra preta e plantas espalhadas por toda a garagem. ‘Buaaaaaaaaa... O pai vai nos matar’. ‘Já sei’ eu gritei, ‘Vamos limpar tudo e depois vamos dormir que quando o pai chegar não vai nos bater dormindo, certo?’ Limpamos a garagem rapidamente, tomamos banho e fomos dormir. Só que antes de deitar nos precavemos. Cada um colocou três calças e várias blusas. Me lembro como se fosse ontem. Meu pai chegou e como um detetive veterano do programa CSI viu os vestígios de terra no chão da garagem. Olhou para onde ficava o vaso e não viu nada além de cacos. Entrou calmamente em casa e foi direto em quem? Em quem? No filho mais velho. ‘Edson. Edson. Acorda filho’. Eu estava dormindo coisa nenhuma. Estava só fingindo. ‘Edsooooon. Acorda filho. O pai quer falar com você’. Eu, como grande ator de novela mexicana demorei um pouco para abrir os olhos. Coloquei a mão no rosto ‘Hã? Pai? O que foi?’ ‘Quem quebrou o vaso? Eu não falei que era para tomar cuidado’. O Naldo, o maior bunda mole de todos, já começou a chorar sem apanhar. Eu, para servir de exemplo, fui o primeiro a sofrer as consequências. ‘TIRA A MÃO DA BUNDA, EDSON’. ‘NÃO VOU TIRAR’. Imaginem a cena: meu pai tentando acertar minha bunda com a cinta, pois sabia que era ali que doía mais e eu a defendendo. Enquanto isso, no canto da sala, o Naldo chorava sem ter tomado nem uma cintada. Só sei que nesse dia apanhamos que nem gente grande. Mas o legal de tudo era que depois íamos dormir e começávamos a rir, lembrando da situação.




Uma coisa que o Seu Barriga amava fazer era visitar nossos parentes em São José do Rio Preto. Sempre que possível arrumava as coisas, colocava no carro e botava o pé na estrada. Gostava de sair de São Paulo de madrugada. Assim evitava o transito infernal da Marginal e chegava de manhã em SJRP. Ele se sentia muito bem lá. Eu também, apesar do calor. Muito mais quente que em São Paulo. Meu pai que não era nada bobo aproveitava então para tomar banho em alguns açudes que havia por lá. Era muito engraçado vê-lo com aquelas pernas finas, barriga saliente e sunga. Lembro dele ensinando o Derick a nadar.

Tudo era bom e ainda é por aqueles lados. Mas havia algo que não era bom. Era ótimo. Toda vez que estávamos chegando em SJRP meu pai parava numa barraca à beira da estrada para tomarmos caldo de cana. Que delícia. O melhor caldo de cana do Brasil. Geladinho. Na medida certa. E na volta trazíamos para casa pets do refrigerante Cotuba. Que refrigerante gostoso. Pena que não temos esse refrigerante aqui na capital.


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Meu pai era motorista do caminhão de gás Liquigás. Eu achava o máximo. Uma vez por semana ele passava em casa no horário do expediente. Eu adorava entrar na cabine e ficar mexendo no volante, fingindo que estava dirigindo. E também subir na caçamba e ficar mexendo nos botijões. Lembro do meu pai levando dois botijões vazios e batendo um no outro pelo meio das pernas. Aquilo me dava uma agonia.  E a musiquinha? Era impossível não saber quando meu pai estava chegando. Essa música rapidamente virou um clássico e é tocada até hoje. Ele era muito feliz trabalhando na Liquigás. Naquela época ele já bebia, mas de maneira controlada. Nada demais. O problema começou quando ele se aposentou...


Quando ele saiu da Liquigás se viu com um tempo ocioso muito grande. Não tinha muito que fazer. Ele acordava cedo, me acordava e ia à padaria comprar pão, leite e sua broa de milho (por causa dele sou também viciado em broa de milho no café da manhã). Depois do café ficava na calçada, observando o que acontecia na rua, cumprimentando quem ali passava. Mais tarde ia para o bar do Joaquim e ali se reunia com outros aposentados para beber uma e jogar sinuca. E assim ia até a tardezinha da noite. Como tinha mais tempo, as viagens para SJRP ficaram mais corriqueiras. E foi nessa vida, na verdade um pouco antes de aposentar, que sua barriga começou a tomar forma de melancia, lhe valendo o apelido de Seu Barriga. No começo, era algo até que normal. Não tendo mais que levantar cedo para ir trabalhar, era normal que se ocupasse conversando com os amigos e tomando uma. Com o tempo, a coisa deixou de ser normal. Começou a beber mais cedo e a chegar em casa mais tarde. Eu e meus irmãos não gostávamos, mas não ligávamos muito. Éramos adolescentes. Tínhamos nossos próprios conflitos para resolver. Quem sofria e muito era minha mãe. Ela brigava com ele, dizendo que ele estava exagerando.




Meu pai era teimoso, pois ele tinha diabetes e precisava se cuidar. Não podia deixar de tomar os remédios e com isso dar brecha para a doença. E por conta disso precisava maneirar na bebida. Minha mãe sabia que do jeito que as coisas estavam se encaminhando ele iria parar no hospital. Dito e feito. Teve um derrame e perdeu a mobilidade do lado esquerdo do corpo. E por causa da mistura de remédios e álcool acabou tendo seu corpo debilitado, fraco, o que fez que ficasse numa cadeira de rodas. E como a diabetes judiou dele. Ele tinha umas feridas nas pernas que não saravam por causa dela. O médico percebeu que a perna já estava ficando preta e teve que amputá-la antes que outros órgãos fossem comprometidos. Foi um momento difícil para todos nós. Minha mãe não tinha mais vida, pois a vida dela agora era cuidar do meu pai. Sua vida era do hospital para casa. De casa para o hospital. Lembro de vários parentes vindo de todos os lugares do Brasil para visitar o Seu Barriga. Ele era muito querido.

 Eu sei. A história ficou meio triste agora. Porém foi nesse momento complicado que algo inusitado aconteceu. Estávamos sentados à mesa, comendo o pão de broa que ele tanto gostava quando tive a ideia de contar uma das minhas piadas hilárias. Não me pergunte qual porque sinceramente não me lembro. Nesse dia meu pai não estava falando direito por causa do derrame, era difícil entender o que ele dizia. Só sei que quando acabei de contar a piada, ele ria. E ria. Ria demais. E nós todos riamos também. Não por causa da piada, mas da forma gostosa e espontânea que ele ria. Isso me marcou. É uma imagem que ficará para sempre na minha mente. Lembro dele batendo palmas, rindo e dizendo ‘Boa, Esso’.

E é com essa imagem que quero encerrar esse texto. Uma imagem do meu pai sorrindo, feliz da vida. Porque ele era assim. E que o Papai do Céu o tenha em bom lugar. Quem sabe ele não esteja ao lado da minha mãe e juntos estejam dando boas risadas.

Te amo pai !!!



Carlos Reis

19/09/1945 – 14/07/2006